Infalibilidade Papal e Ecumenismo sob a Ótica Evangélica


Fausto Rocha

Recentemente, num gesto elogiável de humildade cristã, e de coerência, o Papa João Paulo II pediu perdão a algumas comunidades, em nome da Igreja Católica Romana, por atos e omissões da Igreja e, portanto, de papas anteriores. Infalível, só Deus

Sou cristão evangélico e tenho lido, com consideração e respeito, artigos escritos por autoridades da Igreja Católica Apostólica Romana. Um desses artigos afirma: O que distancia os cristãos é o não reconhecimento do primado de jurisdição dos papas sobre toda a Igreja, a sua infalibilidade... e Que os papas sejam os legítimos sucessores de Pedro como bispos de Roma, é reconhecido ... pelos Evangélicos conhecedores da história1.

Desejo, então, analisar se as seguintes afirmações, e as correspondentes citações bíblicas, podem nos levar a uma compreensão melhor do que Deus pode estar querendo nos revelar:

Será Pedro ou o próprio Jesus a pedra angular sobre a qual a Igreja foi instituída? Lendo a Bíblia, poderemos compreender o contexto em que a frase de Jesus foi dita em Mateus 16.15-18: Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro respondendo, disse: Tú és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi a carne e o sangue quem to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Em 1 Pedro 2.5-7 é Pedro mesmo quem reconhece e afirma que Jesus é a pedra angular, a pedra que vive... e quem nela crer não será confundido. Paulo diz aos Efésios: Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos Santos e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas,de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor (Ef 2.19-21). Todos os livros da Bíblia apontam claramente para Jesus, o Messias prometido. Ele é o Salvador, o dono da Igreja. Ele disse: edificarei a minha igreja (Mt 16.18).

O catolicismo romano deseja que aceitemos, além do primado do papa sobre todos os cristãos, a infalibilidade papal. Na verdade, a Igreja Católica Romana só adotou essa doutrina a partir do ano 1 076. Até então, nem ela própria cria na infalibilidade do Papa. A infabilidade papal relaciona-se com declarações de fé ou moral e, nesse particular é sabido que os papas entre si divergiram doutrinariamente. A propósito, a história registra vários exemplos de contradições doutrinárias entre os papas: Libério (358 AD) consentiu na condenação de Atanásio e fez profissão de fé ariana. Leão I (440-461) declara em seu Tomo em 13 de junho de 449 que Maria possui a culpa do pecado: ... O Senhor, tomou da mãe a natureza, não a culpa2 , no entanto Pio IX declara em 1 854 o dogma da Imaculada Concepção de Maria. Gregório I (578-590) chama de anticristo a qualquer que tomar o nome de Bispo Universal3, aqui estão apenas alguns exemplos. Sobre a fabilidade humana lemos na Bíblia: ...sempre seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso... (Rm 3.4). Recentemente, num gesto elogiável de humildade cristã, e de coerência, o Papa João Paulo II pediu perdão a algumas comunidades, em nome da Igreja Católica Romana, por atos e omissões da Igreja e, evidentemente, de papas anteriores. Infalível, só Deus, o imutável Deus de amor e de justiça : o mesmo ontem, hoje, e eternamente (Sl 90.2; Is 40.28; 41.4; 43.10-13; Hb 9.14; 13.8).

Eis a afirmação católica romana : Que os papas sejam os legítimos sucessores de Pedro como bispos de Roma, é reconhecido tanto pelos ortodoxos cristãos do Oriente separados de Roma, quanto pelos Evangélicos conhecedores da história4. Quanto aos ortodoxos cristãos do Oriente separados de Roma, é possível que aceitem. Porém, como Deputado evangélico por 16 anos, andei por todo este Estado de São Paulo e estive diversas vezes com os mais ilustres líderes das principais denominações evangélicas e não encontrei um só Pastor que reconhecesse o Papa como legítimo sucessor de Pedro. Reconhecemos, sim, as inegáveis virtudes pessoais de João Paulo II e o respeito com que é recebido em todo o mundo. No entanto, continuamos biblicamente preocupados com a idolatria, à qual o Senhor abomina (Ex 20.4-5), e com os acréscimos à Palavra de Deus, condenados seriamente (Ap 22.18), como, por exemplo, a teoria do purgatório, que não existe na Bíblia, e foi decretada em 1439. A autoridade maior da Igreja é Jesus Cristo.

A BÍBLIA É CRISTOCÊNTRICA E OS QUATROS FUNDAMENTOS DA REFORMA PROTESTANTE CONTINUAM PERFEITAMENTE ATUAIS.

O desejo inicial do Padre Martinho Lutero não era o de romper com a Igreja Católica, mas transformá-la e fazê-la voltar aos princípios bíblicos. Os quatro fundamentos principais de suas 95 Teses, afixadas em 1 517 na porta do Castelo de Wittenberg, onde eram pregados os avisos da Universidade Católica em que lecionava Teologia Bíblica, são:

I-) Só pela Bíblia. Autoridade absoluta da Palavra de Deus. Não ao sincretismo - a incorporação de tradições locais, de diversos países, geralmente advindas de fontes pagãs, aceitas no mesmo nível da Bíblia pela Igreja Católica.

II-) Só pela fé. ... sois salvos, por meio da fé ... (Ef 2.8).

III-) E pela graça. Porque pela graça sois salvos... (Ef. 2.8). ...mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 6.23); Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie (Ef 2.8-9). As obras não são condição para a salvação, mas sim reflexo daquele que é salvo e pratica boas obras como fruto do amor de Jesus em sua vida.

IV-) Só por Jesus - Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho,e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14.6). Aquele que crê no Filho tem a vida eterna... (Jo 3.36). Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem (1 Tm 2.5).

Faz quase 500 anos que essas verdades bíblicas foram proclamadas com toda a clareza e força de convicção que as justifica, e até hoje os católicos ainda não pararam para pensar seriamente nelas, e nem apresentaram a fundamentação bíblica daquilo em que preferem crer, como as orações pelos mortos, introduzidas no ano 310; acender velas, no ano 320; adoração de santos, cerca do ano 375; água benta, no ano 840; canonização de santos, no ano 993; celibato, no ano 1 074; infalibilidade do Papa, no ano 1 076; Terço, no ano 1 090; Sete Sacramentos, no ano 1 140; A venda de indulgências, no ano 1 190; o dogma da transubstanciação e o confessionário, no ano 1 215; Ave Maria, no ano 1 316; o cálice determinado só para o clero, no ano 1 415; Purgatório, no ano 1 439; oficialização da tradição católica romana no mesmo nível que as Escrituras Bíblicas, no ano 1 546; meia dúzia de livros apócrifos incluídos no Cânon Bíblico, no ano 1 546; a conceição imaculada da virgem Maria anunciada, no ano 1 854 e a ascensão da virgem Maria, no ano 1 950

A respeito dos santos da Igreja Católica Romana, lemos na Bíblia: Porquanto escrito está: Sede santos, porque eu sou santo (1 Pedro1.16). Nós devemos ser santos, pedindo a graça de Deus para dedicar crescente santidade de vida ao Senhor. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas embaixo da terra. Não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso....(Êx 20.4-5).

Santo quer dizer separado para o serviço de Deus. São vidas preciosas que nos inspiram. São exemplos. Mas nenhum santo deseja, nem pode, tomar o lugar de Jesus, que é o único mediador entre Deus e o homem (1 Tm 2.5). O Seu sangue, vertido na cruz do Calvário, é que nos dá acesso ao trono da graça de Deus. SÓ JESUS CRISTO SALVA ! Ele é o nosso Advogado e está vivo, ao lado do Pai, intercedendo por nós. Só Jesus faz isso! (1 Jo 2.1).

No céu não haverá tabuleta com nome de Igreja. Para passar toda a eternidade ao lado de Deus, há uma única exigência: ter sido lavado pelo sangue de Jesus Cristo, que nos purifica de todo o pecado (1 Jo 1.7), quando o aceitamos como nosso único e suficiente Salvador. Jesus disse ao ladrão da cruz: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso (Lc 23.43). Não foi preciso passar pelo purgatório - lugar intermediário entre a morte e o destino final do homem: céu ou inferno - lugar imaginário em que purgaríamos os nossos pecados através da missa, em nosso favor, feita pelos amigos ainda vivos. Também não foi indispensável praticar boas obras: o ladrão estava morrendo e havia praticado o mal e não o bem. Bastou ao ladrão reconhecer seu pecado: ...porque recebemos o que os nossos feitos mereciam... (Lc 23.41) e pedir à pessoa certa: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino (Lc 23.42). A Salvação foi completa, e na hora. Porque todos pecaram e destituidos estão da glória de Deus (Rm 3.23). Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor. (Rm 6.23). Aquele que crê no Filho tem a vida eterna,... (Jo 3.36). É pelos méritos de Jesus que podemos ter a certeza da Salvação (1 Jo 5.12-13). Se tivesse que ser pelos nossos méritos, não poderíamos ter nem esperança da Salvação e da vida eterna com Deus!

Não sou ecumênico, mas o apelo simpático da Igreja Católica Romana pela unidade da Igreja cristã, poderá tornar-se a realidade que todos os cristãos desejam, assim que os princípios das Sagradas Escrituras sejam aceitos por todos os cristãos como única regra de fé e de prática, sem lhe acrescentar nada, por exigência clara do Texto Sagrado. Lemos na Bíblia: Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe fará vir as pragas que estão escritas neste livro (Ap 22.18).

O apóstolo Paulo diz: Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido. Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir e instruir em justiça ( 2 Tm 3.14,16).

VÁRIOS ACONTECIMENTOS DEMONSTRAM QUE OS CATÓLICOS ROMANOS ESTÃO DISPOSTOS A MUDANÇAS

Temos visto com simpatia vários acontecimentos que, nas últimas décadas, demonstram que os católicos estão dispostos a mudanças: passou a ser consentido aos católicos lerem a Bíblia; a missa deixou de ser rezada em latim. O Movimento de Renovação Carismática trouxe um novo alento, pois muitos cânticos dos evangélicos passaram a ser cantados por eles. Eles começaram também a orar diretamente a Deus, em nome de Jesus, e não somente através de rezas decoradas e repetidas, dirigidas a outros intermediários. Jesus disse: ... para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo o que em meu nome pedirdes ao Pai ele vos conceda (Jo 15.16).

Finalizando, ao apelo do catolicismo romano, podemos responder que é perfeitamente possível chegarmos, evangélicos e católicos, à unidade na diversidade, desde que sem digressões afrontosas à Palavra de Deus. Em Jesus, amamos os católicos e oramos por eles. Continuemos, pois, orando para que o nosso bom Deus derrame sua graça, misericórdia e sabedoria, de tal maneira que Dele aprendamos. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Assim como em um só corpo temos muitos membros ... assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo... (Rm 12.2,5).