A antiga caminhada de Abraão através do Oriente Médio está na origem das três principais religiões que hoje disputam a Terra Sagrada. Nesse ponto o Gênesis registra um evento que influenciaria profundamente o rumo da história mundial. No antigo Oriente Médio, as esposas incapazes de gerar filhos incentivavam o marido a procriar com escravas e concubinas. Assim, Sara, que já sabia ser estéril, convenceu Abraão a ter um filho com Hagar, uma escrava egípcia que provavelmente estava com eles desde que o faraó os expulsara do Egito. Foi o nascimento de Ismael, o primeiro filho de Abraão, que prenunciou a emergência, no século 7 de nossa era, de uma nova religião dominate na Arábia - o Islã - conduzida pelo profeta Maomé. O Corão refere-se ao primeiro filho de Abraão como um mensageiro e um profeta [...] dos mais aceitáveis aos olhos de seu Senhor. A linhagem de Ismael conferiu legitimidade à nova fé, mas o Corão não menciona em nenhum trecho o nome de Hagar. Abraão e depois Ismael são os modelos perfeitos de devoção para os fiéis do islamismo. O nome de Abraão aparece em 25 dos 114 capítulos do Corão, e até hoje Ibrahim e Ismael são prenomes comuns entre os muçulmanos, sobretudo na Arábia. "O Corão nos explica que todas as verdadeiras revelações provêm de Deus", afirma John Voll, professor de história islâmica do Centro de Aproximação entre Muçulmanos e Cristãos da Universidade de Georgetown. "É o registro da grande revelação divina, comum a todos os textos sagrados." Parece não haver dúvida de que Maomé e seu círculo mais íntimo de discípulos sempre consideraram Abraão o autêntico fundador de sua fé. O Corão ordena que os muçulmanos sigam a religião de Abraão, que jamais foi judeu ou cristão, foi, outrossim, monoteísta [...] e nunca se contou entre os idólatras. Maomé nasceu em Meca por volta do ano 570. Ali ele estava rodeado pelas comunidades judaica e cristã, embora os muçulmanos nunca tenham acreditado que essas fés tenham influenciado a revelação do Islã. Em 622, Maomé mudou-se para Medina, onde cresceu rapidamente o número de seus seguidores. Ele foi finalmente reconhecido como o último de uma série de profetas que incluía Adão, Abraão, Moisés e Jesus, que aparecem, todos eles, redefinidos no livro santo do Islã. O Corão menciona que Abraão e Ismael levantaram os alicerces da casa. A "casa" é a Caaba, em Meca, o mais sagrado santuário do Islã. Um dos quatro cantos dessa pequena estrutura retangular é uma pedra negra sagrada, o que restou de concreto da construção original. O hajj, a peregrinação anual a Meca na qual muçulmanos do mundo inteiro circundam a Caaba, serve para reafirmar o papel central de Abraão e Ismael na fé islâmica.
Enquanto o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo reverenciam Abraão como seu ancestral espiritual, cada religião se refere a ele com um título honorífico diferente. Para os Cristãos ele é o Pai na Fé. No Corão, o livro sagrado do Islã, Deus disse: "Eu farei dele o chefe das Nações", ou líder de todos os povos (Sura 2: 124). A Academia para os Estudos Judaicos, Cristãos e Islâmicos de UCLA trabalha para fomentar a comunicação entre os povos dessas três crenças. O presidente da Academia, George B. Grose, explica como as três religiões tem destinos interligados: "Elas são independentes e distintas ainda que conjugadas. Irão encontrar-se no Juízo Final. Essa interação é tripla. Se houver algum tipo de diálogo entre duas, pode esperar - por um momento, que seja, um dia, um milhão de anos - que a terceira aparecerá." Abraão, como representante em comum dessa heração espiritual, pode ser uma força poderosa para tal unificação de Judeus, Cristão e Muçulmanos. Michelle R. Harris